O prolapso genital grave, ou prolapso de órgãos pélvicos (POP) avançado, é uma condição caracterizada pela descida de um ou mais órgãos pélvicos (bexiga, útero, reto) através da vagina, afetando significativamente a qualidade de vida.
Sintomas do Prolapso Genital Grave
O sintoma mais característico do prolapso genital grave é a sensação de abaulamento ou massa vaginal, que pode ser visível ou palpável, frequentemente descrita como uma “bola” ou “caroço” saindo pela vagina, e que piora com o esforço ou ao final do dia. Outros sintomas incluem disfunções urinárias (incontinência, jato fraco), intestinais (constipação, evacuação incompleta), dor sexual (dispareunia), peso pélvico e dor lombar.
Diagnóstico do Prolapso Genital Grave
O diagnóstico é primariamente clínico, baseado na história dos sintomas e em um exame físico minucioso que avalia o tipo e o grau do prolapso. Exames complementares podem ser úteis para avaliação aprofundada ou elucidação de sintomas complexos. A ressonância magnética de defecação (defeco-ressonância) é um exame valioso para avaliar prolapsos do compartimento posterior e outras disfunções do assoalho pélvico, oferecendo uma visão dinâmica da anatomia e função.
Tratamento do Prolapso Genital Grave: Abordagens e Considerações
O tratamento é individualizado, considerando idade, comorbidades, desejo de manter a atividade sexual e expectativas da paciente. As opções incluem abordagens não cirúrgicas e cirúrgicas.
1. Opções Não Cirúrgicas Para casos mais leves, pacientes que não são candidatas à cirurgia ou que desejam adiar o procedimento, podem ser utilizados pessários (dispositivos vaginais de suporte) e fisioterapia do assoalho pélvico.
2. Opções Cirúrgicas As cirurgias para prolapso genital grave dividem-se em obliterativas e reconstrutivas.
- Cirurgia Obliterativa (Colpocleise):
- Indicação: Pacientes idosas e com múltiplas comorbidades que não desejam manter a atividade sexual vaginal.
- Técnica: Envolve o fechamento total da vagina, sob anestesia raquidiana.
- Benefícios: Altíssima eficácia (>95% a longo prazo), baixa morbidade e alta satisfação (quando bem indicada). É um procedimento irreversível.
- Cirurgias Reconstrutivas:
- Indicação: Pacientes que desejam manter a função sexual vaginal. Podem ser realizadas por via vaginal ou abdominal. A via abdominal pode ser cirurgia convencional aberta, laparoscópica ou robótica.
- Tratamento por Via Vaginal: A via vaginal é uma abordagem comum para o reparo do prolapso, oferecendo recuperação geralmente mais rápida, menos dor pós-operatória e ausência de incisões abdominais. No prolapso apical, a fixação sacroespinhosa por via vaginal é uma opção. O uso de tela aumenta a durabilidade do reparo anatômico, mas aumenta os riscos potenciais (erosão, infecção).
- Sacrocolpopexia (Sacropromontofixação): O Padrão-Ouro Considerada o padrão-ouro para o prolapso apical grave, especialmente em pacientes pós-histerectomia. Consiste na fixação do ápice vaginal ao ligamento longitudinal anterior do sacro, geralmente com uma tela sintética. A utilização de tela via abdominal tem risco menor de erosão e infecção, quando comparado a via vaginal. Apresenta elevada durabilidade anatômica e altas taxas de sucesso (>90%) e satisfação.
- Benefícios da Sacrocolpopexia Minimamente Invasiva (Laparoscópica/Robótica): Essa abordagem oferece vantagens significativas sobre a cirurgia aberta, incluindo resultados anatômicos superiores, menor perda sanguínea, menos dor pós-operatória, menor risco de infecção, menor tempo de internação e recuperação mais rápida.
- Potenciais Benefícios da Cirurgia Robótica em Casos Reconstrutivos Complexos: A cirurgia robótica pode aprimorar procedimentos reconstrutivos complexos pela maior precisão e destreza, visualização tridimensional aprimorada e melhor acesso a espaços anatômicos restritos. Isso pode levar a menor tempo de internação, menos dor e melhores resultados estéticos em certos casos, apesar dos custos e tempo operatório iniciais mais altos.
A Experiência do Cirurgião: A experiência do cirurgião é crucial, impactando diretamente as taxas de complicação, tempo cirúrgico, eficiência e resultados. Cirurgiões com maior volume de procedimentos tendem a ter melhores desfechos.
Em suma, a escolha da técnica cirúrgica para o prolapso genital grave deve ser baseada em uma avaliação multidimensional e uma discussão detalhada dos riscos, benefícios e expectativas da paciente, alinhada às evidências mais recentes.
Autor: Guilherme Behrend Silva Ribeiro, urologista, CREMERS 31936.
Leitura Complementar: Referências Selecionadas
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